O Amor na Família: É hora de agir

The Brooks family -- Joe, Desiree, Gabrielle and Alyssa -- pray after arriving for Sunday Mass at St. Joseph's Catholic Church in Alexandria, Va., Nov. 27. According to the first study of its kind, Black Catholics in the U.S. are highly engaged with their religion and parish life, more so than white Catholics. (CNS photo/Nancy Phelan Wiechec) (Nov. 29, 2011) See BLACK CATHOLICS Nov. 29, 2011.
The Brooks family — Joe, Desiree, Gabrielle and Alyssa — pray after arriving for Sunday Mass at St. Joseph’s Catholic Church in Alexandria, Va., Nov. 27. According to the first study of its kind, Black Catholics in the U.S. are highly engaged with their religion and parish life, more so than white Catholics. (CNS photo/Nancy Phelan Wiechec) (Nov. 29, 2011) See BLACK CATHOLICS Nov. 29, 2011.

Após a breve exposição que tivemos em nossa Assembleia  diocesana de novembro, a partir da Exortação Apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia, Sobre o Amor na Família, espero que todos tenham tido oportunidade de ler ou reler o próprio documento, estudá-lo nos diversos grupos e ambientes de nossa diocese. Há ali, de fato, um amplo horizonte evangelizador, tendo a família como caminho e oportunidade de realizar a sonhada conversão missionária que o Papa pede a toda a Igreja.

Por graça da providência divina, o nosso 8º Plano Diocesano, em vigor, contempla bem a prioridade da família. Não será necessário modificá-lo para colocarmos em prática o apelo do Papa Francisco. As nossas assembleias recentes acompanharam o amplo debate dos Sínodos, de modo que abrem caminho para que todas as pastorais descubram e se envolvam com o cuidado das famílias.

Mesmo estando assim bem planejada a Ação Evangelizadora, restam algumas dificuldades muito grande: para que o plano escrito e aprovado na assembleia diocesana chegue aos lares, à prática das comunidades, há um árduo caminho a ser feito. E o mais demorado não é ler ou estudar, ou planejar estratégias. Demorado é o caminho da consciência para passar de uma igreja que espera os fiéis chegarem, para uma igreja missionária, que sai para encontrar os que não vêm; passar de uma igreja de  sócios remidos, para uma igreja solidária que busca e oferece amor e salvação a quem necessita.

Esta mudança de direção se chama “conversão pastoral”, e é essa a chave geral que liga e ilumina todo o edifício da Igreja que está no pensamento do Papa Francisco.

Para conhecer o pensamento e a proposta da Amoris Laetitia, insisto, devemos ler e reler o próprio texto, que é belo e envolvente. Mesmo depois de lido e relido sobram pérolas de grande valor a serem descobertas. É preciso estudar o documento em todos os grupos.

Por isso, mais uma vez eu retorno ao tema da família, numa perspectiva de ação pastoral. Tomo como ponto de partida quatro palavras, quatro verbos (verbos são palavras que nos colocam em ação). Esses quatro verbos, muito enfatizados pelo Papa Francisco são: acolher, acompanhar, discernir e integrar. Podemos dizer que esses verbos são o que há de mais original no caminho pastoral do pontificado do Papa Francisco e seus desdobramentos atingem toda a ação evangelizadora.

Vamos ter presente que a nossa Diocese caminhou muito à luz do 8º Plano, cresceram os grupos de Pastoral Familiar nas Paróquias, os movimentos familiares se envolveram, mas ao apresentar essas quatro palavras, gostaria que todos, todas as pastorais e movimentos, todos os serviços eclesiais se sentissem convocados a refletir e agir.

Acolher: ninguém pode ser excluído do amor de Deus

É bonito observar nas nossas igrejas a alegria daqueles que fazem a Pastoral da Acolhida. Sorriso nos lábios, palavras de saudação, informações e outros cuidados. É como fazemos quando chega visita em casa, a acolhida é fundamental. A acolhida vai além do sorriso dirigido aos que já são da comunidade. Uma atenção especial deve ser dada a quem vem pela primeira vez, aos que vêm na ocasião dos sacramentos, ou porque perderam um ente querido. Lugar especial no coração da comunidade merecem aqueles que não são bem aceitos em outros ambientes, os que incomodam, sobretudo os mais pobres, os que se sentem rejeitados. Bem se vê que a Pastoral da Acolhida não deve ser feita só por um grupo uniformizado e sorridente. Deve ser feita por todos.

Dando um passo a mais: entendemos que a acolhida não é só esperar. É ir em busca, e quando se trata das famílias, é muito comum que nas horas de maior sofrimento (luto, conflitos, desemprego, filhos difíceis) a família de fecha, se afasta.. Aqui entra a pastoral missionária. É nas visitas missionárias que se vai em busca da ovelha perdida.

E ao encontrar quem está afastado, quem errou, quem está só, quem mudou de religião, quem criticou… não importa, acolher bem é não excluir ninguém. Todos devem ser acolhidos e amados.

Mas, e os divorciados, os recusados, os de comportamento errático, os maldizentes, os criminosos… até os criminosos? Sim, devem ser acolhidos porque para Deus, todos são filhos. Ele não exclui ninguém. Nós também não podemos excluir.

Acompanhar: juntos caminhamos mais longe

Claro que, ao acolher a todos, devemos apresentar-lhes o amor de Cristo de forma a que se aproximem da verdade, do ensinamento do Evangelho, inicia-se um processo de conversão. Quando se trata de famílias, nem sempre é fácil. Imaginem os jovens que estão há tempos afastados. Imaginem os que só querem batizar, mas não querem participação na igreja. Imaginem os casais fracassados que sentem vergonha ou mesmo foram ofendidos algum dia na igreja. Imaginem aqueles que estão presos no vício, na droga. Imaginem aqueles que nunca tiveram chance de aprender algo de religião. Não é de repente que encontram o caminho. Devem ser acompanhados, com delicadeza e persistência. O papa recomenda um acompanhamento “corpo a corpo”, com amizade e testemunho, investindo tempo e atenção, compartilhando a alegria do retorno à casa. Acompanhar os jovens em sua preparação para a futura vida familiar, acompanhar os casais nos primeiros anos de casamento, acompanhar as inevitáveis crises e dramas familiares, acompanhar os momentos de luto, de perda, e também os sucessos e alegrias. Ninguém cresce na vida cristã sozinho. Quando oferecemos nossa companhia, recebemos mais do que doamos.

Discernir: cada um tem uma história única

Ao acolher na Igreja e acompanhar as famílias em sua situação real, nem sempre encontramos famílias onde pai e mãe vivem pleno amor, na graça do sacramento, acolhendo os filhos com responsabilidade, numa verdadeira “igreja doméstica”. Por vezes falta algum desses elementos. Outras vezes a realidade das famílias contraria esse ideal proposto pela Igreja. A tarefa de quem acompanha a família se torna mais complexa: as situações são muito diversas. Nem tudo se resolve através das normas e princípios gerais. É preciso estudar caso a caso. No caso de haver conflito, ou mesmo uma separação, como acolher, como orientar? Que dizer aos filhos?

O Papa Francisco fala em discernimento. Esta palavra quer dizer ponderação, reflexão, procura do caminho mais adequado. Discernir não é julgar. Isso só Deus pode fazer. Quem acompanha uma família pode ajudá-la a questionar, se houve negligência, erros repetidos, se faltou esclarecimento, maturidade, se o caminho de Deus foi abandonado. Discernir é considerar todos os aspectos, levando em consideração o bem de cada um. Por vezes é necessário recorrer ao padre, para que ele oriente. Outras vezes há necessidade de profissionais para orientar a família. Para por em prática isso que pede o Papa será necessário formar melhor os casais da comunidade nessa arte do discernimento. As paróquias deverão ter um centro de atendimento às famílias que ajudem a discernir, nas possíveis emergências: a pastoral da escuta, a mediação de conflitos, atendimento psicológico, médico, jurídico, pedagógico. Há casos em que é possível a declaração de nulidade de um casamento que realmente não foi válido. Antes de fazer um processo de nulidade há todo um trabalho pastoral a ser feito, por pessoas que saibam orientar.  Há os casos mais tristes de violência doméstica, a dependência química, o cuidado dos doentes. Nossas comunidades têm profissionais dispostos a ajudar, ou orientar pessoas que se disponham a ajudar.  Que bom se pudessem contar com um centro de atendimento desses, para colocar seu saber a serviço dos irmãos que necessitam. Novamente, esse atendimento às famílias supõe competência, tempo e doação pessoal. O próximo Sínodo terá como tema “O jovem, a Fé e o discernimento Vocacional”. O Papa quer que Igreja ajude e ensine os jovens a escolher seu caminho. Estaria o Papa sonhando demais ao pedir isso das nossas igrejas?

Integrar: há um lugar destinado por Deus para cada um

O discernimento das múltiplas situações, o acompanhamento cuidadoso das famílias deve levar, gradualmente, a essa última etapa que é a integração da família na vida da comunidade. Se a Igreja é uma família de famílias, cada uma delas deve se sentir participante. Nem sempre é possível integrar de imediato, mas mesmo às famílias em segunda união deverão se sentir participantes. Se não podem participar ainda dos sacramentos, podem participar dos benefícios da oração, da partilha da Palavra de Deus, os filhos podem integrar-se na liturgia, nos grupos de jovens, podem ser acolhidos na catequese, podem ajudar nos trabalhos comunitários, podem, sobretudo, dar o seu testemunho diante de tantas famílias que ainda não encontraram o caminho da participação na Igreja.

Não há espaço para listar tudo o que se pode fazer para colocar em prática a Exortação Apostólica sobre o Amor na Família. Porém, tendo em vista o nosso 8º Plano Diocesano, apenas deixo algumas perguntas para os Conselhos de Pastoral, para os movimentos e para cada família:

– Nossas paróquias se sentem realmente convocadas a sair ao encontro das famílias? Há real acompanhamento das famílias dos catequizandos, das famílias que se preparam para o casamento, dos casais que vivem os primeiros anos de vida matrimonial, dos casais em crise, das famílias pobres? As famílias se sentem acolhidas e acompanhadas sem exclusão?

– Os movimentos e pastorais se unem em ações de conjunto em favor das famílias, ou só se ligam nas ações do seu próprio grupo, ou da sua espiritualidade?

– O cuidado das famílias não pode ficar restrito a um grupo de casais ou a um movimento. É tarefa de todos. Qual o papel da Pastoral Familiar nesse contexto de uma ação evangelizadora de toda a Igreja voltada para a família?

Se respondermos bem a estas questões, estaremos vivendo a sonhada “conversão pastoral”.

Dom João Bosco, ofm
Bispo de Osasco – SP

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